Posted on 02/03/2010

3


Era uma garota cientista, passava o dia estudando quimica e física, porque não gostava de biologia. De noite assistia filmes com seu pai, que era maestro numa orquestra e achava que ela devia ver o mundo como ele é.

Eles assistiam filmes cults e documentários que mostravam que a vida não é uma comédia romântica e que o Hugh Grant não vai aparecer e te beijar depois de noventa minutos de mal-entendidos.

Ela cresceu com uma visão realista do mundo, segundo seu pai, mas qualquer bom pseudopsiquiatra a diagnosticaria com pessimismo crônico, falta de empatia e depressão pós fim de Friends.

Sim, ela assistia Friends. Mas odiava Grey’s Anatomy.

Um dia ela foi na padaria e havia um cara cantando [You think you’ve lost your love, well, I saw her yesterday] enquanto pedia o pão [It’s you she’s thinking of and she told me what to say] e esperava a moça da padaria pega-lo [She says she loves you And you know that can’t be bad] e colocar no saco de papel [Yes, she loves you and you know you should be glad] e pesa-l0 -Deu dois e cinquenta, mais alguma coisa?

[She loves you, yeah, yeah, yeah

She loves you, yeah, yeah, yeah

She loves you, yeah, yeah, yeah, yeah]

E ela viu que a vida não era só overdoses, tiroteios, bloqueios econômicos, debates, manipulação, música clássica, politica, teologia, estudos, pesquisas.

E ela ficou lá, parada, olhando o cara. Pela primeira vez na vida não sabia o que fazer.

E ele viu ela olhando e falou

Oi.

E ela não falou nada.

E ele falou:

Você estuda na mesma escola que eu, não é?

E ela não falou nada.

Então ele foi embora.

E ela passou o resto daquela existência mediocre culpando as padarias e os Beatles por mostrar que ela podia viver melhor.

Anúncios
Posted in: Terça-feira